Wednesday, 15 July 2009

EXPRESSO DE SABADO

Sim, o dia era esse mesmo. Sábado. Lembro que era calor e que se esperava muito pra conseguir pegar o ônibus de volta pra casa. Viajar sentado era uma ilusão, mas ilusões eram permitidas. Alias, as ilusões são o combustível dos que não conseguem ver a luz no fim do túnel. Dos que acordam as cinco da manha para trabalhar e percebem, por isso, um salário ridículo. Sim, esses vivem de ilusões.

Sábado, logo após o meio dia. Uma fila gigantesca aguardando o ônibus, que chegava trazendo o alivio de voltar pra casa, mesmo tendo que viajar uma hora e meia pra isso, em pé.

Entrei afoito por um lugar, obviamente, não consegui, fiquei ali em pé, ao lado de um banco, o pessoal subindo desenfreadamente, com suas sacolas, falando alto e contando as moedas para passar na roleta do coletivo. Permaneci ali, quieto, ouvindo. Como se ouve coisas viajando em um ônibus como esses, coletivos, de longo percurso. Podemos ficar sabendo das mais sórdidas historias e de romances secretos, do saldo bancário dos que lutam diariamente por uma vida melhor, enfim, podemos saber de muitas coisas.

Fiquei em pé mais ou menos uns quarenta minutos, ouvindo e observando o comportamento das pessoas, eu sempre fazia isso, discretamente e claro, para não parecer evasivo e para não ser intimidado por algum super-homem que pudesse aparecer.

Enfim, o banco em minha frente se desocupa. Sento aliviado e assim continuo a minha viagem de volta pra casa, eu sentia dores nas pernas por ficar tanto tempo em pé, mas sabia que quando chegasse em casa, poderia tomar um banho quente e me refazer fisicamente.

Depois de uns quinze minutos sentados nesse banco, que era quase em frente à porta de embarque do coletivo, um cidadão falando alto entra no ônibus. Camisa aberta, uma corrente grossa na cintura, que por sinal, abrigava uma arma. Carregava uma sacola imensamente pesada, que ele não hesitou e largou com uma confiança absurda no meu colo! Gritava enlouquecido para que o motorista acelerasse o veiculo e dizia em voz alta que ali quem mandava era ele, e que se alguém o duvidasse matava ali mesmo.

Bom, nem preciso dizer que passei a segurar a sacola do indivíduo quase que com dedicação, ele colocava a mão no revolver a todo o momento e gritava com todas as pessoas que olhavam pra ele, intimidando e falando absurdos. Falei ali encima de um super-homem? Sim ali existia um. De repente, do nada, aparece um outro homem, quieto, observador e de estatura media. Olhava atentamente para a cintura do xerife, que gritava para todos que precisava de qualquer motivo pra atirar em alguém. Eu ali, já meio apavorado com tudo aquilo, era definitivamente muita realidade pra mim. Mas permaneci quieto.

Quando comecei a prestar atenção no revolver, discretamente, vejo que uma mão o sacou da cintura do xerife, pensei: pronto, ta feita a porcaria. Era o cidadão do lado dele que havia se aproximado e sacado a arma do indivíduo que ate então, mandava no coletivo.

Passamos a ter um novo mandante, esse, mais educado grita: Ta tudo certo rapaziada, esse vai passear pra bem longe!

Bom, seja lá o que isso signifique, o xerife se calou e o novo mandante mandou parar o ônibus.

O bairro era a Hípica, naqueles locais de poucas residências. O ônibus parou. O novo mandante ordena que o xerife desça. A porta traseira se abriu, o novo mandante retirou a sacola do xerife do meu colo educadamente, arremessou-a na rua, gritou com o xerife, que foi se virando para descer, quando ouço um estampido. Dois tiros, o novo mandante atira a arma fora e grita: Segue seu motorista!

E fomos embora, em silencio, apenas com o ruído do estampido em nossas memórias, sem saber se o xerife havia partido dessa para outra ou se ficara ali, agonizando em companhia de seu revolver, que o traiu nas mãos de outro e lhe deu dois tiros nas costas.

Quase sempre era uma aventura as viagens naqueles ônibus. Outra hora conto mais...

1 comment:

PotiJr said...

Ba, essa eu nunca vi, e olha que eu morava no Rubem Berta... ehehehe

Aquele abraço!!!